Maras: rota circular São Salvador-Los Angeles

ENTREVISTA / Juan Carlos Narváez Gutiérrez

retrato_original.jpgDepois de estudar o tema das migrações populacionais entre Estados Unidos e México durante anos, o acadêmico Juan Carlos Gutiérrez Narváez decidiu entrar no mundo das maras, ou pandillas transnacionais (grupos de jovens da América Central), após uma visita a El Salvador. “Fui a São Salvador numa viagem pessoal em dezembro de 2002 e foi ali que minha lente sociológica se reorientou geograficamente. Meu trabalho anterior se concentrava só nas produções culturais geradas no espaço que se constroi entre a fronteira nacional dos Estados Unidos com o México”, comenta Narváez.

Do trabalho minucioso e muito próximo aos integrantes e ex-integrantes de maras, surgiu seu livro “Rota transnacional: de São Salvador para Los Angeles. Espaço de interação juvenil em um contexto migratório”, no qual Narváez relaciona o tema da migração com a juventude e o fenômeno da transnacionalidade destes grupos cujos membros circulam – geralmente deportados – entre os Estados Unidos e a América Central.

“Durante a minha estadia em El Salvador me dei conta que o tema das maras está nas ruas, tatuado na memória coletiva e é parte da agenda nacional. A formação da Mara Salvatrucha na América Central é a consequência das migrações forçadas que levaram a um grande contingente de salvadorenhos a establecer-se durante os anos 80 nos Estados Unidos. Poderíamos afirmar que a Mara Salvatrucha 13 é fruto da diáspora salvadorenha na Califórnia, são os filhos da guerra, uma guerra que ainda não acabou”, afirma o pesquisador.

O Comunidade Segura conversou com Narváez sobre as maras e sobre algumas tentativas de usar suas estruturas como ferramentas de inclusão social, tal como fez a organização de ex-pandilleros Homies Unidos e o religioso californiano Gregory Boyle.

Além do suporte teórico, o livro traz muitas entrevistas. Como foi o acesso aos protagonistas desses grupos?

Levar a cabo uma pesquisa como esta me fez trabalhar em várias frentes. Primeiro, a abordagem de uma comunidade que vive na marginalidade nos Estados Unidos. Segundo, a conjuntura em que realizei o trabalho de campo para a pesquisa, que coincidiu com a implementação de políticas de mão dura, tanto nos Estados Unidos como em El Salvador, a qual me colocou de frente aos jovens da comunidade como suspeito. Mais de uma vez fui submetido a um interrogatório exaustivo sobre quem eu era, o que fazia ali e por que tinha interesse neles.

Então, segui uma estratégia de abordagem através dos indivíduos, passando por seus líderes e organizações. Assim, o livro se estrutura de tal forma que leva o leitor a compreender as origens dos deslocamentos dos salvadorenhos no contexto da guerra civil dos anos 80, seu estabelecimento em Los Angeles, a interação com os outros grupos de imigrantes – na maioria mexicanos –, a formação das pandillas de corte étnico, e alguns modelos de intervenção a partir das mesmas bases. Enfim, o que me ajudou a ter acesso ao mundo dos jovens associados às pandillas foi passar-lhes confiança e ir sem preconceitos esperando reciprocidade, porque, no fim das contas, dentro do contexto dos Estados Unidos, ambos somos latino-americanos: eles salvadorenhos, eu mexicano.

Depois de várias décadas de migração, de acordo com estatísticas citadas no livro, os jovens de origem centro-americana já não são minoria. Por que as maras ainda são um mecanismo de autoafirmação?

Hoje, a Mara Salvatrucha é uma das maiores pandillas centro-americanas da Califórnia e de El Salvador. Originalmente, a MS13 exaltava sua condição étnica sobre outros grupos como os mexicanos, os afro-descendentes, os nativos, ou os russos. O nome é levado da pátria com orgulho, ser salvadorenho acima de tudo. Assim nascem e dali tiram a força de seus vínculos identitários.

Agora, apesar de as pandillas terem crescido exponencialmente durante os últimos 15 anos, em Los Angeles existe uma cultura de gangues que é anterior à formação da Mara Salvatrucha: o pachuquismo e o cholismo são antecessores diretos da organização e da estética que hoje assumem os membros da MS13 ou da Pandilla del Barrio 18 – esta última conhecida nos meios de comunicação como a Mara 18, que é uma evolução da Eighteen Street Gang, uma pandilla formada nos anos 60 por mexicanos.

A história do grupo é um bom exemplo para falar sobre a transformação das pandillas no princípio do século XXI, e fazer uma diferenciação regional desses grupos, já que o que estamos vivendo hoje na América Central com a MS13 e a Mara 18 é resultado da cultura pandillera nascida na América do Norte, mas que se torma mais forte na América Latina pelas condições de pobreza, marginalização, violência e ausência do Estado.
 
Alguma coisa mudou nestes grupos?

Conceitos como amizade, solidariedade, respeito, apoio ou compreensão passaram a um segundo plano. Estamos diante de uma segunda geração de mareros, jovens que não têm um vínculo direto com as migrações dos anos 80 para os Estados Unidos, mas que dentro dessas remessas culturais enviadas através dos deportados internalizaram o modelo de ser jovem na América Central. Esse jovem que, diante da carência de opções – trabalho e educação –,  encontra na pandilla o único espaço possível de realização.

Na Califórnia é outra história. A luta por espaço é constante: bairros, escolas, trabalhos segregados social e espacialmente são o eixo do cotidiano. O cinema mostra como este rito de passagem transformou a cultura das comunidades latinas nos Estados Unidos. Vide "Zoot Suit", "American Me", "Blood in blood out" e, recentemente, "Wats up rockers".

A resposta repressiva da sociedade às maras levou o condado de Los Angeles a ter mais prisões juvenis do que escolas. O senhor acha que isto reforça o ciclo exclusão-violência-exclusão?

O binômio juventude-violência é a fórmula sobre a qual os governos definem suas políticas para os jovens. Ou seja, mantêm e promovem espaços de controle social, coibindo a liberdade criativa desses jovens. Prisões e políticas de mão dura têm se mostrado ineficientes para enfrentar o fenômeno das pandillas.

Nos Estados Unidos, essa cultura passou do século XX para o século XXI com a mesma força com que se iniciou. A estrutura de segregação econômica, racial, étnica, laboral, religiosa e política acomoda o todo social; a segurança está no respeito cultural, a violência se cria na ignorância e no desconnhecimento do outro. Na América do Norte, as emoções que geram a chegada de um vizinho asiático, hindu, salvadorenho, nicaraguense, ou colombiano abre um espaço para o confronto – absurdo, mas real.

Como foi a experiência de George e de Homies Unidos na Califórnia, que aproveitaram a estrutura da mara para disseminar valores positivos e oferece oportunidades de educação e inclusão em geral?

Em meados da década de 90, membros fundadores de diversas pandillas na área de Los Angeles, pandilleros veteranos como Alex Sánchez, depois de viver dentro das pandillas desde a adolescência, decidiram trabalhar espaços de intervenção juvenil para baixar os índices de violência no interior e exterior dos grupos. Assim nasceu a Homies Unidos.  

Outras organizações seguem o mesmo modelo adotado pela Homies Unidos - como Homeboys Industries, fundada pelo padre Gregory Boyle - e em todas se parte da ideia de trabalhar com os jovens a partir de um cenário de respeito a suas identidades. O interessante da Homies Unidos é que ela realiza um trabalho de base tanto em Los Angeles como em El Salvador, mantendo uma oficina e realizando programas de reinserção social na área profissional, escolar e em atividades políticas em ambas as sociedades, a norte-americana e a salvadorenha.

Essas iniciativas têm apoio da sociedade?

Da perspectiva da comunidade e das instituições governamentais - entenda-se a polícia - o trabalho da Homies Unidos não tem credibilidade. Há dois meses, na Califórnia, o FBI prendeu Alex Sánchez, diretor da organização, acusado de ter vínculos com a MS13, pandilla da qual foi membro ativo há mais de dez anos. Além disso, em El Salvador, mais de um diretor de Homies Unidos foi assassinado desde a sua criação e seus membros têm sido vítimas de atentados, tanto por parte da polícia como por membros de grupos ativos.

As migrações não vão acabar, as deportações tampouco… O que deveria mudar no modelo que se utiliza para enfrentar a violência gerada pelas maras?
 
As migrações internacionais não param, pelo contrário, diversificam seus destinos tanto para o interior da América do Norte como para a Europa. Grupos de origens étnicas se multiplicam: Latin Kings, Ñetas, Trinitarios, Mara Salvatrucha, Sureños, Norteños, todas elas são identificações e desenhos socioculturais que expressam um mal-estar ante as nações, ante o mundo e seus sistemas de dominação.

As políticas de "mão firme" não integram os jovens aos projetos de nação. Ao contrário, desintegram os projetos pessoais dos jovens latino-americanos que vivem nas sociedades de origem ou nas sociedades hospedeiras. Os Estados Unidos estão se latinizando. Até metade do século XXI, a população hispânica será a minoria étnica mais numerosa da América do Norte, as segundas gerações estarão transformando o mapa cultural da América. Esta mobilidade implica em mudanças visíveis e imperceptíveis e possuem dilemas e contradições em torno das ajustes profundos das sociedades globais. Democracias simuladas, inclusão com exclusão, são os cenários que hoje, em plena era da globalização, nos ensinam como será o futuro.

Saiba mais:

Dossiê Gangues juvenis na América Central

Em outros sites:

Clique aqui para baixar o livro (em espanhol)

Migração e desenvolvimento (em espanhol)

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